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sexta-feira, janeiro 20, 2006

Ode ao gato


"Os animais foram

imperfeitos,

compridos de rabo,tristes

de cabeça.

Pouco a pouco se foram

compondo,

fazendo-se paisagem,

adquirindo pintas,graça,vôo.

O gato

só o gato

apareceu completo

e orgulhoso:

nasceu completamente terminado,

anda sózinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro

a serpente quisera ter asas,

o cachorro é um leão desorientado,

o engenheiro quer ser poeta,

a mosca estuda para andorinha,

o poeta trata de imitar a mosca,

mas o gato

quer ser só gato

e todo gato é gato

do bigode ao rabo,

do pressentimento à ratazana viva,

da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade

como ele,

não tem

a lua nem a flor

tal contextura:

é uma coisa só

como o sol ou o topázio,

e a elástica linha em seu torno

firme e sutil é como

a linha da proa

de uma nave.

Os seus olhos amarelos

deixam uma só

ranhura

para jogar as moedas da noite

Oh pequeno

imperador sem orbe,

conquistador sem pátria

mínimo tigre de salão, nupcial

sultão do céu

das telhas eróticas,

o vento do amor

na interpérie

reclamas

quando passas

e pousas

quatro pés delicados

no solo,

cheirando,

desconfiando

de todo o terrestre,

porque tudo

é imundo

para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente

da casa, arrogante

vestígio da noite,

preguiçoso, ginástico

e alheio,

profundíssimo gato,

polícia secreta

dos quartos,

insígnia

de um

desaparecido veludo,

certamente não há

enigma

na tua maneira,

talvez não sejas mistério,

todo o mundo sabe de ti e pertence

ao habitante menos misterioso,

talvez todos acreditem,

todos se acreditem donos,

proprietários, tios

de gatos, companheiros,

colegas,

díscipulos ou amigos

do seu gato.

Eu não.

Eu não subscrevo.

Eu não conheço o gato.

Tudo sei, a vida e seu arquipélago,

o mar e a cidade incalculável,

a botânica,

o gineceu com os seus extrávios,

o pôr e o mesnos da matemática,

os funis vulcânicos do mundo,

a casaca irreal do crocodilo,

a bondade ignorada do bombeiro,

o atavismo azul do sacerdote,

mas não posso decifrar um gato.

Minha razão resvalou na sua indiferença,

os seus olhos tem números de ouro."

(Navegaciones y Regresos, 1959)

Pablo Neruda






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